A espiritualidade frequentemente sai pela janela no instante em que entramos em uma discussão, tropeçamos em uma crise ou caímos em depressão.



A escuridão toma conta tão rapidamente que esquecemos de tudo que aprendemos.



É por este motivo que é bom estudar diariamente, ler uma passagem da torah ou algum texto inspirador, decorar uma citação ou assistir uns minutos de uma palestra para nos lembrarmos do que é realmente importante.



Dê a sua mente algo para mastigar, para que ela não mastigue a si mesma.



Yehuda Berg


domingo, 22 de abril de 2012

A Erva Amarga


O Rebe Nachman contou a seguinte história:
 
Era uma vez um judeu e um alemão, ambos desempregados, que viajavam juntos„ O judeu disse ao alemão para fingir que era judeu (já que o alemão e o iídiche são línguas relativamente parecidas), para que os judeus tivessem pena dele.
Como a festa de Pêssach (a Páscoa judaica) estava chegando, ele ensinou ao alemão como se portar ao ser convidado para um Sêder (a ceia dessa festividade). Ele explicou que eles faziam o Kidush (santificação) com o vinho, que lavavam as mãos e assim por diante.
A única coisa que ele esqueceu de mencionar foi sobre comer o Maror, uma erva amarga.
O alemão foi convidado para jantar numa casa e, faminto, mal podia esperar por todas as iguarias que seu amigo judeu lhe descrevera.
A primeira coisa que lhe deram para comer foi um pedaço de aipo mergulhado em água e sal.
Em seguida, começaram a recitar a Hagadá (livro que narra o êxodo do povo hebreu do Egito) e ele ficou lá, esperando pela comida.
Quando a matsá (pão ázimo) foi finalmente servida, ele ficou muito feliz.
Logo em seguida, serviram-lhe um pedaço de raiz forte como erva amarga.
Ela estava extremamente amarga, e o homem achou que aquilo seria a refeição. Ele saiu correndo da casa, com a boca amarga e cheio de fome.
— Malditos judeus! Depois de toda aquela cerimônia é só isso que eles me servem?
 
Ele foi para a sinagoga e adormeceu.
Mais tarde, seu amigo judeu chegou feliz e saciado de sua ótima refeição.
— Como foi o seu Sêder?- ele quis saber.
E o outro homem lhe contou o que acontecera.
— Seu bobo! Se você tivesse esperado só mais um pouco, você teria comido uma boa refeição, igual a mim.
 
O mesmo acontece quando queremos nos aproximar de Deus.
Depois de todo o esforço inicial, recebemos um pouco de amargura.
Isso é necessário para purificar nossos corpos.
As pessoas podem pensar que essa amargura é tudo o que recebemos por servir a Deus, e então elas fogem disso.
Mas se elas esperassem um pouco e permitissem que seus corpos fossem purificados, sentiriam toda a alegria e prazer do mundo e uma maior proximidade com Deus.

Seja Grato


Em 1970, em uma das minhas canções prediletas, Janis Joplin escreveu de forma poética:
“Don’t it always seem to go that you don’t know what you’ve got till it’s gone?”, em português: “Não parece que sempre se vai, aquilo que você não sabe que tem, até que já tenha ido?”
 
E ela está certa.
É triste perceber que, às vezes, somente quando as pessoas saem de nossas vidas é que as enxergamos como realmente eram e o que tinham para nos oferecer.
Isso é verdadeiro não só para pessoas, como também para muitas outras coisas.
 
Quantos de nós rezamos para ter saúde apenas quando ela está prejudicada ou para ter sustento financeiro somente quando há pouco dinheiro em nossas contas bancárias?
Muitas vezes, acontece de começarmos a apreciar as coisas ou pessoas que temos em nossas vidas, somente quando as estamos perdendo.
 
Apreciação pode ser uma ferramenta poderosa para manter tanto nossas bênçãos, quanto uma forte conexão com a Luz.
 
Houve um tempo em que havia muitos tzadikim (pessoas justas) no mundo, mas poucos lhes davam atenção.
Quando o grande cabalista do século XVI, Rav Isaac Luria (o Ari) era vivo, nem todas as pessoas da cidade de Safed iam ouvi-lo falar. Mas, quando ele deixou este mundo, todos pensaram: “Ele viveu bem aqui, entre nós, na nossa cidade, e nem mesmo aproveitamos a oportunidade de nos conectarmos com ele!”.
Assim como o Ari, Rav Brandwein e seu mestre, Rav Ashlag, não tinham muitos discípulos.
Hoje, graças ao trabalho de Rav e Karen Berg, de tornar esse conhecimento disponível para as massas, esses mesmos mestres têm muito mais alunos agora do que tinham quando estavam vivos!
Muitas pessoas daquela geração disseram que se tivessem ao menos se dado conta de como esses mestres eram grandes quando vivos, elas teriam estudado com eles.
 
Quando apreciamos, podemos vivenciar a bênção.
Quanto mais somos gratos por algo, maior é o nosso potencial de nos sentirmos plenos com aquilo.
Plenitude é apreciação verdadeira e profunda.
 
Os cabalistas têm uma oração chamada “Modeh Ani”, que recitamos toda manhã, assim que abrimos nossos olhos.
Traduzindo, as palavras “modeh ani” significam: “Eu agradeço.”
Devemos procurar despertar apreciação por todo o ar que respiramos, por estarmos aqui para viver, amar e aprender por mais um dia.
 
Seja grato.
 
É muito mais fácil nos concentrarmos no que não temos, do que sermos gratos por todas as bênçãos que possuímos.
Nesta semana, existe uma energia disponível no cosmo que nos permitirá ir contra a nossa natureza e escolher enxergar as bênçãos, para que possamos permanecer conectados com tudo o que há de bom em nossas vidas.
 
Por: Yehuda Berg
 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Masculino e Feminino


Muitas pessoas se perguntam sobre as diferenças entre o homem e a mulher conforme expressas na Halachá (Conjunto de Leis).
Alguns tentaram explicá-las em termos das diferenças psicológicas e sociais entre os sexos, mas realmente sabe-se tão pouco a respeito destas diferenças que isto é pouco mais do que especulação.
Além disso, a Torá trata basicamente do ser humano espiritual, e quando encontramos uma diferenciação entre homem e mulher, é principalmente por causa de suas diferenças espirituais.
Para entender essas diferenças espirituais, devemos tentar compreender o propósito de Deus ao criar dois sexos.
Afinal, ambos os sexos compartilham a "imagem" de Deus, pois está escrito: "E criou Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criou-os." (Gênesis 1:27).
A chave para isto está no ensinamento dos nossos sábios de que quando um homem e uma mulher vivem juntos em santidade, a Presença Divina está entre eles.
A palavra hebraica para "homem", Ish (cya), contém a letra Yud (y), ao passo que Ishá (hca) , "mulher", contém a letra Hê (h) .
Estas são as primeiras duas letras do Nome de Deus (h - y).
O homem, portanto, corresponde à letra Yud no nome de Deus e a mulher, à letra Hê.
Os Mestres nos ensinam que Yud se refere à sabedoria, enquanto Hê corresponde ao entendimento. A sabedoria é portanto o elemento masculino, e o entendimento, o feminino.
O Baal Shem Tov nos ensina ainda que a letra Yud no Nome de Deus é Sua oferta de criação, ao passo que a letra Hê é a Mão que a oferece.
A guematria, ou valor numérico, de Hê é 5, correspondendo aos cinco dedos.
A sabedoria se relaciona particularmente com as origens e o passado, pois está escrito: "O princípio é a sabedoria" (Provérbios 4:7).
Além disso, está escrito: "Eu sou o primeiro e o último" (Isaías 44:6).
Os Mestres nos ensinam que o "primeiro" se refere à sabedoria e o "último" ao entendimento.
Sabedoria, o elemento masculino, é portanto o passado, e entendimento, o elemento feminino, é o futuro. A sabedoria consiste de tudo que foi acumulado, ao passo que o entendimento é como se fará uso dela.
O elemento do homem, portanto, é basicamente o passado, e o da mulher é o futuro.
Conhecimento é a ligação entre a sabedoria e o entendimento, entre passado e futuro, entre masculino e feminino. Assim está escrito: "E o homem conheceu a Eva, sua mulher" (Gênesis 4:1).
O passado influencia o futuro, mas o futuro não pode mudar o passado.
O conhecimento é o que o passado insere no futuro.
Ele vem essencialmente do elemento masculino, e assim nos ensinam que "o conhecimento da mulher é leve" .
Uma vez que o entendimento é o elemento feminino, nos ensinam também que "maior entendimento foi dado à mulher." Neste sentido, os seis dias úteis são masculinos, enquanto o Shabat é feminino.
Durante os seis dias úteis, o mundo se renova pelo impulso original da Criação, e portanto eles pertencem ao passado. Mas no Shabat compartilhamos do mundo vindouro — o futuro em última instância — o mundo onde tudo será Shabat.
Agora podemos entender esta diferenciação básica entre homem e mulher na Torá. As obrigações do homem são dirigidas ao passado, enquanto a mulher se dirige ao futuro. O homem preserva o passado, a mulher cria o futuro.
O estudo da Torá se relaciona aos ensinamentos do passado e por esta razão é principalmente uma obrigação do homem. As mulheres não são obrigadas a estudar, a não ser para saber o suficiente para cumprir os mandamentos.
Preservar o passado através do estudo da Torá é domínio masculino. Contudo, quando a Torá foi dada inicialmente, ela foi ensinada primeiro às mulheres.
Está escrito: "Assim dirás à casa de Jacó" — as mulheres — "e anunciarás aos filhos de Israel" (Êxodo 19:3).
Quando a Torá foi dada pela primeira vez, ela representava todo o futuro do povo judeu e portanto pertencia mais às mulheres que aos homens. Além disso, também há uma Torá que é especificamente feminina. Está escrito: "Escuta, meu filho, a disciplina do teu pai, e não despreze a instrução da tua mãe" (Provérbios 1:8). Nossos sábios nos ensinam que a "disciplina do teu pai" se refere à Torá dada no Sinai, enquanto "a instrução" — a Torá — "da tua mãe" se refere aos costumes que seriam introduzidos no futuro.
É este versículo que nos obriga a nos comportarmos segundo esses costumes  Contudo, a mais importante diferença entre o homem e a mulher é também a mais óbvia: é o fato de as mulheres engravidarem e os homens não.
É neste papel que as mulheres são as principais responsáveis pelo futuro da raça humana.
Ana estava falando por todas as mulheres quando disse: "Senhor do Universo, Tu não criaste nenhuma parte do meu corpo em vão... Tu criaste estes seios sobre meu coração para alimentar meus pequenos."
 
Há duas categorias básicas de mandamentos na Torá.
Os mandamentos positivos nos dizem "Faça", e os mandamentos negativos nos dizem "Não faça".
A Torá ensina que os mandamentos negativos são compulsórios para homens e mulheres igualmente. O mesmo é verdade para os mandamentos positivos que não dependem de um tempo específico.
É no âmbito dos mandamentos positivos dependentes de tempo que se encontram as maiores diferenças entre as obrigações haláchicas do homem e as da mulher.
O efeito prático desta regra é isentar as mulheres de sete mandamentos: a prece Shemá Israel, os Tefilin (filactérios) da cabeça e da mão (dois mandamentos separados), Tsitsit (franjas), Sucá (cabana), Lulav e Shofar.
Esta distinção está relacionada aos elementos básicos do masculino e feminino, respectivamente, passado e futuro.
Mandamentos positivos nos impõem a ação, e assim representam o passado se projetando no futuro.
Mandamentos negativos, por outro lado, nos contêm, e representam o futuro contendo o passado.
Mandamentos positivos, portanto, pertencem ao elemento masculino, enquanto mandamentos negativos pertencem ao feminino.
Como o passado influencia o futuro, os homens devem cumprir os mandamentos negativos tanto quanto as mulheres. Ao influenciar o futuro, eles também entram no domínio feminino. O futuro, contudo, não pode influenciar o passado e, portanto, sempre que o tempo está envolvido, as mulheres estão desobrigadas dos mandamentos positivos.
Entretanto, quando o mandamento não envolve tempo, o futuro se mistura ao passado e as mulheres também devem cumpri-lo.
É com sua capacidade de engravidar e de gerar a vida que as mulheres cumprem a totalidade dos 248 mandamentos positivos. É por isso que "Réchem", a palavra hebraica para "ventre", tem a guematria, ou valor numérico, de 248, a totalidade dos mandamentos positivos.
Ainda assim, pode-se perguntar: por que a desigualdade?
Achamos que de muitas maneiras a Torá parece dar ao homem um status superior ou uma posição dominante.
Esta posição pode estar relacionada à nossa observação prévia de que o passado masculino determina e domina o futuro, enquanto o futuro feminino não pode alterar o passado. Mesmo assim, devemos buscar a razão desta desigualdade.
 
Ao discutir a desigualdade básica em relação à mulher, nós devemos distinguir entre a situação do homem antes e depois da queda de Adão.
Antes do pecado, está escrito: "enchei a terra e subjugai-a" (Gênesis 1:28).
Nossos sábios nos ensinam que isso significa que o homem domina a mulher.
Ao dominar a terra, e assim, sendo proeminente no comércio e na indústria, o homem também domina a mulher, que depende dele.
Depois do pecado, contudo, Deus disse à mulher: "e para teu marido será o teu desejo e ele dominará em ti" (Gênesis 3:16).
O que antes havia sido uma pequena vantagem, porque a vida no Éden não requeria trabalho, agora tornou-se uma dominação absoluta.
Como resultado do pecado, o homem foi amaldiçoado: "Com o suor do teu rosto comerás pão" (Gênesis 3:19). Tanto o homem como a mulher se tornaram muito mais dependentes do trabalho do homem e o papel masculino se tornou correspondentemente mais importante.
Até certo ponto, isto aconteceu porque a mulher foi a primeira do casal humano a desobedecer as palavras de Deus. Sendo quem tinha "conhecimento leve", ela foi tentada a provar da Árvore do Conhecimento.
Mas a questão permanece: por que havia uma desigualdade básica entre o homem e a mulher? Por que o homem era dominante mesmo antes do pecado? Por que a mulher foi tentada, e por que o mandamento de não comer da Árvore do Conhecimento só foi dado ao homem?
 
Encontramos uma alusão a este problema no versículo "E fez Deus os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para governar o dia, e o Luzeiro menor para governar a noite" (Gênesis 1:16).
Nossos sábios nos ensinam que o sol e a lua originalmente foram criados iguais.
A lua reclamou, dizendo: "É impossível dois reis iguais governarem sob uma coroa." Deus então disse à lua: "Vá e se reduza ."
O Zôhar, o texto místico de maior autoridade, nos ensina que a redução da lua simboliza o papel subordinado do elemento feminino em toda a Criação.
A lua perdeu seu poder de irradiar sua própria luz e agora só reflete a luz do sol.
O Sol é responsável pela medida dos anos, que é um ciclo repetitivo simples.
A própria palavra "ano", Shaná, significa “repetição”.
O Sol é portanto o elemento masculino, repetindo o passado.
A lua, por seu lado, mede os meses.
A palavra hebraica para "mês" é “Chódesh”, literalmente "algo novo".
O mês lunar se baseia nas fases da lua, passando por um ciclo completo de nascimento, crescimento e morte, e antecipando constantemente o futuro.
A lua se queixou que o passado masculino e o futuro feminino haviam sido criados com a mesma influência.
Deus diminuiu a influência do futuro, reduzindo assim o elemento feminino.
A razão pela qual o homem tem o domínio da terra é que ele pode aprender com a experiência passada.
Esta ligação com o passado também explica porque ele domina a mulher.
O mundo do futuro, porém, será um tempo onde é sempre Shabat, e como o profeta previu: "Então a luz da lua será igual à luz do sol" (Isaías 30:26).
Nesta época, a desigualdade entre homem e mulher também será erradicada.
 
Estamos nos aproximando rapidamente da Era Messiânica, quando a maldição associada ao pecado de Adão será retirada.
Quando a maldição for suprimida, o status da mulher também mudará radicalmente.
Nossos sábios ensinam: "Todos serão curados, exceto a serpente."
Esta mudança no status da mulher talvez esteja referida na profecia "Porque Deus cria algo de novo sobre a terra: a mulher rodeia seu marido" (Jeremias 31:22).
A nova conscientização entre as mulheres não passa de um mero indício da luz da Era Messiânica futura. Já vemos essa iluminação em coisas como o renascimento de Israel e a volta de Jerusalém, assim como na busca renovada da paz, da justiça, do governo honesto, da igualdade e do significado da vida.
Também a vemos nos avanços tecnológicos que, em grande medida, vêm eliminando a maldição de Adão.
Mudanças tecnológicas e sociológicas rápidas trazem grandes convulsões sociais em sua esteira. As mudanças cataclísmicas que acontecem à medida que o fim se aproxima resultarão em considerável sofrimento e desarticulação, freqüentemente chamadas de Chevelê Mashiach, "as dores de parto do Messias."
Muitos se afastarão do judaísmo e será um tempo de grande ateísmo.
Podemos usar o indício de luz que ilumina nossos tempos a partir da Era Messiânica futura para fortalecer nosso compromisso com a luz da Torá.
Se, por outro lado, tentarmos usar esta tênue luz para lutar contra a luz maior da Torá, ficaremos então sem luz nenhuma.
Se deixarmos a Tora iluminar nosso caminho, seremos merecedores do mundo do futuro — o mundo onde é sempre Shabat — quando "a luz da lua será igual à luz do sol."
 
Por: Aryeh Kaplan

domingo, 8 de abril de 2012

Tesouro Enterrado


Esta semana oferece uma energia especial para nos conectarmos com o poder da renovação – sermos transformados, recém-abertos para receber a Luz do Criador.
 
Como alunos de cabala, aprendemos que ir à igreja ou a um templo geralmente é um ritual mal interpretado.
O propósito nunca é simplesmente comparecer e “adorar”, mas realizar uma conexão com a Luz, para que possamos usá-la nos dias seguintes.
 
Existe uma história sobre um homem pobre chamado José que vivia há muito tempo atrás em Jerusalém. Ele precisava desesperadamente encontrar trabalho para sustentar sua família. Uma noite, José teve um sonho sobre um tesouro enterrado debaixo do palácio na cidade de Vilna, na Lituânia. Embora Vilna fosse situadaao norte da Europa, a milhares de milhas de Jerusalém, José resolveu ir até lá para encontrar o tesouro.
 
A viagem levou quatro meses. Quando José chegou ao palácio, foi imediatamente confrontado pelos guardas do rei. José ficou tentado a mentir sobre o motivo de sua longa viagem, mas decidiu que dizer a verdade era o melhor caminho, já que não havia feito nada de errado.
 
Assim, José contou seu sonho ao capitão.
Ao ouvir José, o capitão começou a rir. “Se eu desse ouvidos a todos os meus sonhos, estaria em Jerusalém nesse instante. Sabe, essa noite mesmo eu tive um sonho sobre um homem que possui um tesouro enterrado em baixo de sua casa!” Pela descrição que o capitão fez da casa, José se deu conta de que ele era o homem e que o tesouro estava em baixo da sua própria casa.
 
Nesse momento, José entendeu o motivo real da sua viagem: aprender aonde se encontrava o tesouro no final das contas.
 
O ensinamento nessa conhecida história é que o tesouro que procuramos está bem ali, no nosso próprio quintal.
Mas para mim, existe um ensinamento ainda mais profundo no entendimento de que “ir para uma conexão” nunca é o objetivo final, mas sim o meio para alcançar um objetivo final.
Não teremos completado o trabalho só por ter feito a viagem.
É o que acontece depois que constitui a chave.
Como José na história, precisamos retornar para as nossas vidas, para as nossas casas, e realizar ações com a Luz que recebemos.
 
Não se trata apenas de se conectar com a Luz, mas sim o que fazemos com ela que permitirá que encontremos os tesouros infinitos que todos nós estamos designados a receber.
 
Por: Yehuda Berg

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sobre a Ressurreição


Uma de nossas crenças fundamentais é a crença na ressurreição dos mortos. Acreditamos que virá um tempo em que todos os mortos serão trazidos de volta à vida, e corpo e alma serão reunidos.
Assim, o último dos Treze Princípios de Fé (de Maimônides) reza: "Acredito com fé perfeita que haverá uma ressurreição dos mortos no tempo que aprouver ao Criador."
A ressurreição é mencionada na Tora quando Deus diz: "Eu faço morrer e faço viver" (Deuteronômio 32:39).
Esta crença é expressa de maneira mais explícita nas palavras do profeta: "Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós que habitais o pó." (Isaías 26:19)
Este conceito é expresso muito claramente no livro de Daniel (12:2): "E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno."
Contudo, há duas opiniões relativas à ressurreição.
 
A opinião da maioria, advogada por Saádia Gaon, Raavad, Ramban (Nachmânides) e todos os cabalistas, é que a ressurreição é o primeiro passo em direção ao mundo vindouro.
Segundo esta opinião, os mortos ressuscitados viverão para sempre e o mundo vindouro existirá num plano físico, onde corpo e alma estarão reunidos.
Até certo ponto, a idéia por trás disso consta da seguinte passagem talmúdica: Certa vez, [o romano] Antonino disse a Rabi [Judá, o Príncipe]: "O corpo e a alma podem ambos escapar do julgamento de Deus. O corpo pode se defender dizendo: 'Foi a alma que pecou! Pois veja, desde o dia em que a alma me deixou, eu fiquei parado como uma pedra morta [e nada fiz de errado].' A alma pode [analogamente] dizer: 'Foi o corpo que pecou. Desde que deixei o corpo, tenho voado livre como um pássaro.'
Rabi respondeu-lhe: 'Eu te darei um exemplo: Um rei humano tinha um lindo pomar, cheio de figos precoces. Ele designou dois guardas para o pomar, um aleijado e um cego. O guarda aleijado disse ao cego: 'Vejo lindas frutas neste pomar. Carregue-me em teus ombros e poderemos compartilhá-las.' Eles executaram o plano, com o guarda cego carregando o aleijado, até terem comido todas as melhores frutas do pomar. Quando o rei voltou, perguntou aos dois vigias: Aonde estão minhas melhores frutas?' O guarda aleijado retrucou: Acaso tenho pés [para poder ir atrás das frutas]?' O guarda cego [analogamente] disse: Acaso tenho olhos para ver [as frutas]?' O rei, contudo, não foi enganado. Ele colocou o aleijado sobre os ombros do cego e julgou-os conjuntamente.
De maneira similar, Deus trará a alma e a reunirá ao corpo, e depois julgará os dois conjuntamente. Assim está escrito: 'Do alto Ele convoca o céu e a terra, para julgar Seu povo' [Salmos 50:4]. `...Ele convoca o céu' - isto é alma. `...e a terra' - isto é o corpo. [A razão porque ambos são chamados é para que Deus possa Julgar Seu povo.' "
 
Assim o Talmud fornece uma razão profunda para a ressurreição.
No fim dos tempos, o homem será julgado como uma pessoa completa, um ser humano total, com corpo e alma.
Uma alma desencarnada pode ser capaz de uma aguda percepção do Divino, mas não é um ser humano total.
Qualquer julgamento ou recompensa dada a tal alma nunca poderia ser completa.
Muitas pessoas acham difícil compreender isso.
Uma vez que a recompensa do homem, em última instância, é espiritual, que necessidade haverá de um corpo material?
Por que o mundo vindouro deveria ter uma dimensão material?
Para entender isso, devemos introduzir uma questão ligada a esta: Por que Deus criou um mundo físico?
Esta não é uma questão tão trivial quanto parece.
Deus em Si é certamente espiritual, assim como o bem que Ele oferece a Seu mundo. É óbvio que o objetivo da Criação é essencialmente espiritual.
Se é assim, então por que Deus criou um mundo físico?
Este ponto é discutido amplamente em nossa literatura clássica.
Para respondê-lo, contudo, devemos introduzir ainda outra questão: Qual é precisamente a diferença entre o espiritual e o material?
A resposta é realmente bastante simples.
A diferença principal entre o espiritual e o físico envolve o conceito de espaço.
O espaço físico existe somente no mundo físico.
No domínio espiritual, não há conceito de espaço, tal como o conhecemos.
Mas, ainda assim, falamos de estar distantes ou próximos no mundo espiritual. Nossos sábios nos ensinam que a proximidade espiritual envolve semelhança.
Duas coisas que se assemelham estão espiritualmente próximas, ao passo que as que diferem entre si estão distantes.
Isto tem implicações importantes.
No mundo espiritual, é impossível aproximar os opostos.
Por serem opostos, estão, por definição, em pólos separados.
As coisas espirituais, contudo, podem ainda estar ligadas ao material, assim como a alma está ligada ao corpo.
Se dois opostos espirituais estão ligados ao mesmo objeto material, eles podem ser agrupados, pois no mundo físico nós podemos literalmente juntar dois opostos. Assim, por exemplo, o homem tem tanto um impulso para o bem como um impulso para o mal, o Ietser hatov e o Ietser hará.
Num sentido puramente espiritual, os dois estão em polos separados, e sem o material nunca poderiam ser combinados numa entidade única.
Anjos, por exemplo, não têm impulso para o mal.
É somente num corpo físico que o bem e o mal podem ser reunidos.
Embora estejam em pólos opostos espiritualmente, eles se juntam no homem físico.
Deus e o homem também estão em mundos diferentes — "como os céus estão acima da terra". Isto é verdadeiro até para a alma do homem.
Num plano puramente espiritual, seria totalmente impossível que os dois se reunissem.
Toda a meditação e filosofia do mundo seria incapaz de transpor este abismo.
É somente aqui no mundo físico que Deus e o homem podem se reunir.
Foi por isso que Deus criou o conceito de Mitsvót, ou mandamentos.
O ato físico envolvido numa Mitsvá está intimamente ligado à vontade de Deus, pois é Sua vontade que realizemos um ato físico específico. Ao realizar uma Mitsvá estamos literalmente nos ligando a Deus, como mostra o fato da raiz desta palavra em hebraico significar "ligar".
Toda Mitsvá serve para nos ligar a Deus.
Isso, contudo, só pode acontecer no plano físico.
É somente quando Deus e o homem estão ligados ao mesmo ato físico que eles podem estar ligados entre si.
No plano espiritual, não existe maneira disso acontecer.
Foi por essa razão, essencialmente, que Deus criou o mundo físico.
Com esses antecedentes em mente, podemos entender a diferença essencial entre o homem, que é composto tanto pelo material como pelo espiritual, e os anjos, que são puramente espirituais.
Como um anjo não pode se ligar a Deus através de um ato físico, ele não pode se elevar. Somente o homem pode fazê-lo, pois ele está ligado a um corpo físico. Assim, quando Deus mostrou ao profeta a visão dos anjos, Ele lhe disse: "...e eu te darei acesso entre os que estão aqui de pé." (Zacarias 3:7)
Os anjos entre os quais ele se move estão "de pé" e imóveis, enquanto o homem é capaz de movimento físico e progresso espiritual.
Mas assim como o homem não deve repousar em sua glória neste mundo, também não deve fazê-lo no mundo futuro. Nossos sábios nos ensinam: "Os justos não têm descanso, nem nesse mundo nem no próximo. Assim está escrito: 'Eles se fortalecerão continuamente [todos que se apresentam diante de Deus]' (Salmo 84:8)."
Isto explica por que o corpo tem um papel a desempenhar no mundo vindouro.
De acordo com os que defendem esta opinião, a ressurreição é um estado permanente, que leva diretamente ao mundo vindouro.
O ensinamento talmúdico de que os mortos ressuscitados jamais retornarão ao pó parece apoiar esta visão.
Como mencionado anteriormente, contudo, há outra opinião a respeito da ressurreição, defendida pelo Rambam (Maimônides), pelo Rabino Iehudá Halevi e vários outros antigos autores.
Segundo esta opinião, o mundo vindouro é puramente espiritual e a ressurreição é apenas um estado transitório. Alguns dizem que os mortos serão trazidos de volta à vida para participar da Era Messiânica; outros, que eles serão revividos para mostrar o domínio de Deus sobre todas as coisas, mesmo a vida e a morte.
O mundo vindouro é portanto idêntico ao "mundo das almas" para onde vai a alma do homem imediatamente após a morte.
Segundo Maimônides e aqueles que seguem suas opiniões, o corpo experimenta a morte duas vezes. Primeiro vem a morte "natural", que acabará sendo seguida pela ressurreição. Depois esse corpo morre novamente e retorna a um mundo futuro puramente espiritual. Esta segunda opinião é confirmada pelo seguinte trecho do Mídrash Tanchuma: "É por isso que nossos sábios chamam esta [vida futura] de mundo vindouro, não porque ela não exista atualmente, mas porque do nosso ponto de vista ela está 'por vir'. É o mundo vindouro porque é o que se segue depois da vida do homem neste mundo. Quanto àqueles que dizem que este mundo será destruído e depois o mundo vindouro começará, não é este o caso. Quando os justos partem deste mundo, eles imediatamente [entram no mundo vindouro]".
 
Recapitulando, há duas opiniões principais a respeito da ressurreição e do mundo vindouro:
1. Imediatamente após a morte, a alma do homem entra para o mundo das almas (Olam ha-Neshamot) para esperar a ressurreição. No estado ressurreto, com corpo e alma reunidos, ele participa do mundo vindouro.
2. O mundo das almas é o mundo vindouro e é um estado permanente. Ele é temporariamente interrompido para a ressurreição, mas os ressuscitados morrerão novamente e retornarão ao mundo vindouro espiritual.
Estas duas opiniões podem ter existido nos tempos talmúdicos.
Citando os discípulos de Rabi Ismael, o Midrash traz a opinião citada anteriormente de que o corpo e a alma serão julgados conjuntamente, citando a parábola dos dois guardas, e depois traz uma opinião diferente, do Rabi Chiya.
"No mundo futuro, Deus não levará em conta o corpo, e julgará somente a alma.
A alma reclamará: 'Mestre do mundo, ambos pecamos juntos. Por que deixaste o corpo e me escolheste para o julgamento?' Deus então responderá: 'O corpo vem de baixo, um lugar de pecado. Mas tu vens do alto, de um lugar onde o pecado não existe. Portanto, somente tu mereces ser julgada.
De acordo com o Midrash, parece que os discípulos de Rabi Ismael seguiam a primeira opinião, enquanto Rabi Chiya seguia a segunda. Isso explicaria por que encontramos Midrashim defendendo ambas as opiniões.
Se, em última instância, o objetivo da ressurreição causa alguma confusão, seu modo causa ainda mais, pois envolve um milagre da mais alta ordem.
A primeira descrição da ressurreição vem da profecia de Ezequiel, onde é delineado um quadro muito vivo:
'A mão de Deus veio sobre mim e me conduziu para fora pelo espírito de Deus, e me pousou no meio do vale que estava cheio de ossos. E aí fez com que eu me movesse em torno deles de todos os lados. Os ossos eram abundantes na superfície do vale e estavam muito secos. Ele me disse: Filho do homem, porventura voltarão a viver estes ossos?' Ao que respondi: 'Eterno Deus, tu o sabes.' Então me disse: 'Profetiza a respeito destes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra de Deus. Assim fala o Eterno Deus a estes ossos: Eis que vou fazer com que sejais penetrados pelo espírito e vivereis. Cobrir-vos-ei de tendões, farei com que sejais cobertos de carne e vos revestirei de pele. Porei em vós o Meu espírito e vivereis. Então sabereis que eu sou Deus'. Profetizei, de acordo com a ordem que recebi. Enquanto eu profetizava, houve um ruído e depois um tremor e os ossos se aproximaram uns dos outros. Vi então que estavam cobertos de tendões, estavam cobertos de carne e revestidos de pele por cima, mas não havia espírito neles. Então me disse: 'Profetiza ao espírito, profetiza, filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o Eterno Deus: Espírito, vem dos quatro ventos e sopra sobre estes ossos para que vivam'. Profetizei de acordo com o que Ele me ordenou, o espírito penetrou-os e eles viveram, firmando-se sobre os seus pés como um imenso exército. Então Ele me disse: Filho do homem, estes ossos representam toda a casa de Israel, que está a dizer: 'Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança está desfeita. Para nós está tudo acabado'. Pois bem, profetiza e dize-lhe: Assim diz o Eterno Deus: Eis que vou abrir os vossos túmulos e vos farei subir dos vossos túmulos, ó Meu povo, e vos reconduzirei para a Terra de Israel. Então sabereis que sou Deus, quando Eu abrir os vossos túmulos e vos fizer subir de dentro deles, ó Meu povo. Porei o Meu espírito dentro de vós e haveis de reviver. Eu vos reporei em vossa terra e sabereis que Eu, Deus, falei e hei de fazer', diz o Eterno."
 
Este espantoso relato do capítulo 37 do livro de Ezequiel nos dá um quadro vívido da ressurreição.
Ainda assim, discute-se no Talmud se este incidente realmente aconteceu ou se foi somente uma visão.
Pelo contexto, podemos ver que a polêmica se relaciona com a questão de podermos ou não aprender algo a respeito da ressurreição final com Ezequiel.
O Talmud afirma que, segundo a opinião de tudo fora uma mera visão, não podemos.
A questão é discutida em maior detalhe num Midrash:
'A Escola de Shamai diz: O homem não será formado no mundo futuro como é neste mundo. Neste mundo, sua formação começa com a pele e a carne, e os ossos e tendões crescem mais tarde. No mundo futuro, por outro lado, começará com ossos e tendões, e a pele e a carne crescerão sobre eles mais tarde.
Assim consideramos [o seguinte em conexão com] os mortos de Ezequiel: Vi então que estavam cobertos de tendões, estavam cobertos de carne e revestidos de pele por cima' (Ezequiel 37:8).
Disse Rabi lonatan: Não tomamos os mortos de Ezequiel como exemplo. A que podem ser comparados? A um homem que entra numa casa de banhos. O que ele despe por último, ele veste em primeiro lugar.
A Escola de Hilel diz: O homem será formado no futuro como é neste.
Em ambos os casos sua formação começará com a pele e a carne, e acabará com os tendões e os ossos. Assim está escrito: 'Não me derramaste como leite e me coalhaste como queijo? De pele e carne me revestiste, de ossos e nervos me tecestes.' (Jó 10:10-11). [Isto está escrito no tempo futuro e se refere à ressurreição. Pode ser comparado a um prato de leite.] Até que o coalho seja acrescentado, ele está completamente líquido.
Mas quando o coalho é acrescentado, ele coalha e se solidifica.
Assim, Jó diz: 'Tu me derramarás como leite e me coalharás como queijo... Dar-me-ás a vida e a solicitude e Sua providência restaurará meu espírito'."
Aqui encontramos uma diferença de opinião muito importante.
A Escola de Shamai iguala a ressurreição final à da profecia de Ezequiel, onde a carne e a pele cobrirão milagrosamente os ossos dos mortos. Os mortos então se levantarão, exatamente como os ressuscitados por Ezequiel.
A Escola de Hilel adota uma posição completamente diferente. Em seu ponto de vista, a ressurreição será semelhante ao processo de nascimento.
O novo corpo começará como um embrião, com "pele e carne," mas sem ossos ou nervos. Como um embrião, ele gradualmente crescerá e se desenvolverá para formar um corpo ressuscitado.
O processo pode ainda ser milagroso, mas certamente não na mesma fabulosa escala do que foi previsto pela primeira opinião.
 
Há um outro elemento na tradição da ressurreição e este é o "Luz", a parte física da qual o corpo finalmente ressuscitará.
O "Luz" é mencionado diversas vezes no Midrash; um bom exemplo é o seguinte: "Adriano perguntou ao Rabi Iehoshua ben Corcha: 'A partir do que Deus ressuscitará o homem no mundo futuro? 'Rabi Iehoshua respondeu: "A partir do 'Luz' da coluna.' "
Rabi Iehoshua prosseguiu então demonstrando que o 'Luz' era indestrutível.
Em outro Midrash, opina-se que a existência do 'Luz' esteja referida no versículo "a amendoeira está em flor" (Eclesiastes 12:5).
A identidade do 'Luz' não está completamente segura.
Alguns comentaristas se referem a ele como sendo o cóccix, o osso inferior da coluna.
Há outros, contudo, incluindo os cabalistas, que o identificam com a "porção de pó", ou “Tarvad Shel Racav”, que consiste no produto final da decomposição do corpo. Esta opinião é substanciada por um Midrash:
"Rabi Shimon disse: Todos os corpos permanecem na terra até que tudo que reste dele seja uma porção de pó (Tarvad Shel Racav). Isto se mistura com o pó da terra, assim como o fermento colocado na farinha. No mundo futuro, quando Deus conclamar a terra a produzir todos os corpos, este pó germinará na terra, assim como o fermento na farinha. Ele então crescerá e produzirá o corpo sem qualquer defeito. "
Aqui parece que Rabi Shimon segue a opinião da Escola de Hilel, e veremos agora que, de fato, isto é verdadeiro. O que ele está dizendo é que o produto final da decomposição do corpo pode crescer e formar um novo corpo ressuscitado.
O processo é comparado à germinação do fermento e ao crescimento da massa de farinha.
Há um terceiro elemento na tradição, o "orvalho da ressurreição."
Ele é mencionado em diversas passagens, especialmente no Talmud de Jerusalém, que afirma: "A ressurreição acontecerá pelo orvalho. Assim está escrito: 'Os teus mortos voltarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão... porque o teu orvalho será um orvalho luminoso' (Isaías 26:19)."  Desta tradição, vemos que o processo de crescimento será estimulado ou induzido pelo orvalho da ressurreição. Isto também é discutido no Zôhar:
"Rabi Chiya disse: É o corpo original do homem que se levantará. Assim está escrito: 'Os teus mortos voltarão a viver' — eles viverão novamente e não serão recriados. Pois um osso permanece na terra e nunca apodrece ou desaparece. Quando o tempo vier, Deus irá amaciá-lo e o fará germinar como fermento na farinha. Ele crescerá e se espalhará em todas as quatro direções, e dele serão reconstruídos o corpo e todos os membros. Depois disso, o Próprio Deus lhe dará o espírito da vida. Rabi Elazar acrescentou: Este osso será dissolvido no orvalho da ressurreição. Assim está escrito: '...porque o teu orvalho será um orvalho luminoso.' "
Aqui temos uma indicação clara de que os restos finais do homem se dissolverão no orvalho da ressurreição e assim serão estimulados a crescer e formar um novo corpo. Outro ponto importante que vemos aqui é que Deus dará ao novo corpo uma alma somente depois que ele for reconstituído. Isto pareceria indicar que o corpo em si pudesse ser reconstruído pelo homem, e na verdade, há uma tradição que diz que a ressurreição se dará através dos justos.
Um retrato ainda mais claro da ressurreição é dado por outra passagem do Zôhar. Aqui vemos o Rabi Pinchás citando uma opinião da Escola de Shamai de que a ressurreição será semelhante à de Ezequiel.
Rabi Shimon replica:
"Isto já foi discutido por gerações anteriores. Mas Deus realizará milagres e maravilhas incomuns com estes ossos. Assim está escrito: 'Lembra-te de que me fizestes de barro e agora me farás voltar ao pó' (Jó 10:9). Depois disso, a Escritura afirma: 'Tu me derramarás como leite e me coalharás como queijo. De pele e carne me revestirás, de ossos e nervos me tecerás'. (Jó 10:10)"
Depois que o homem se decompuser na terra e quando o tempo da ressurreição chegar, Deus tomará os ossos que restaram e os processará como farinha, assim como o queijo é feito do leite.
O processo será como o da fermentação do leite, que é uma fermentação muito purificada. O osso será dividido em partes muito pequenas e moído até ficar tão líquido quanto leite. Será então coalhado e receberá uma forma, assim como o queijo é coalhado a partir do leite.
Então receberá a forma de pele, carne, nervos e ossos.
Assim está escrito: "Tu me derramarás como leite ."
Os restos se regenerarão: primeiro serão liqüefeitos ou dissolvidos até formar um líquido como o leite. Isto deverá acontecer sob condições muito "puras", ou esterilizadas. O líquido resultante então "coalhará" para formar um embrião, que por sua vez crescerá para formar o novo corpo.
Como veremos, já nos encontramos discutindo um problema que beira a possibilidade científica.
Antes de entrar nisso em detalhe, contudo, averigüemos quão milagrosa deveria ser a ressurreição. Ao defender sua visão de que a ressurreição é só temporária e que os mortos ressuscitados viverão apenas um curto período e depois morrerão novamente, o Rambam afirma que muitas fontes da nossa literatura sagrada provam que um milagre só pode produzir resultados temporários.
Esta parece ser uma regra inviolada — nenhum milagre pode resultar em algo permanente.
A natureza segue seu curso normal e um milagre pode subjugá-la apenas temporariamente. Uma conseqüência interessante disto é que não há registro permanente deixado por milagres e, portanto, não devemos esperar encontrar provas arqueológicas deles.
O Rambam argumenta que, como a ressurreição é evidentemente um milagre, seus efeitos só podem ser temporários.
Esta é uma de suas provas mais contundentes de que os mortos ressuscitados terão que morrer novamente.
Contudo, como vimos, há ainda uma opinião majoritária de que os mortos ressuscitados viverão para sempre.
Segundo esta opinião, a objeção do Rambam permanece uma questão inquietante. Esta objeção permanece incontestável a não ser que digamos que a ressurreição não altera nenhuma das leis da natureza. O fato dos mortos ressuscitados viverem ou não para sempre pode estar relacionada com a discussão entre a Escola de Shamai e a Escola de Hilel.
Shamai tem como origem dos detalhes da ressurreição a visão de Ezequiel, onde os mortos foram ressuscitados milagrosamente e acabaram por morrer.
A Escola de Hilel, por seu lado, detalha a ressurreição pelo desenvolvimento embrionário, que não envolve nenhum milagre manifesto.
É lógico assumir que os hilelitas defendem a idéia de que os mortos ressuscitados possam viver para sempre. Com efeito, no Talmud, encontramos que aqueles que advogavam que os mortos ressuscitados viveriam para sempre também defendiam a opinião de que a história de Ezequiel era apenas uma visão e que não podia ser aplicada à ressurreição final.
 
Agora, embora devamos qualificar nossas observações como conjecturas, as lições que aprendemos aqui são bastante notáveis. Ao invés de encarar esse assunto de um ponto de vista tradicional, exploremos por um momento a possibilidade de trazer uma pessoa morta de volta à vida como um problema puramente tecnológico.
Aqui entra em cena a recém desenvolvida ciência da clonagem.
Como é bem sabido, quase todas as células do corpo contêm um conjunto completo de cromossomos, com todo o material genético necessário para reconstruir todo o corpo.
No método convencional de clonagem, que já foi testada eficazmente em animais, os cromossomos de um óvulo não fertilizado são substituídos pelos da célula a ser clonada. Se este óvulo for depois implantado num útero, ele crescerá formando um cópia geneticamente idêntica do doador do cromossomo.
O que aconteceria se uma porção de material genético suficiente para reproduzir um conjunto completo de cromossomos sobrevivesse num túmulo?
A clonagem poderia então ser feita não só de uma pessoa viva, mas também de uma pessoa morta há muito tempo. Além disso, não há razão para este processo só poder ocorrer num útero natural. Há muitas experiências com úteros artificiais e é certamente concebível que um clone possa se desenvolver num útero artificial. Avançando um passo além, o processo poderia ser executado com um óvulo artificial, ou com outro tipo de mecanismo onde o material genético pudesse se desenvolver primeiro como uma estrutura celular e depois como um embrião em crescimento.
Tudo isso seria uma especulação desvairada se não se encaixasse tão bem com nossas tradições.
Assim, falamos de orvalho da ressurreição, que poderia muito bem ser algum tipo de solução nutriente ou, mais provavelmente, alguma substância capaz de extrair e reagrupar o material genético de restos humanos.
Consideremos os ossos sendo dissolvidos neste orvalho.
O Zôhar afirma claramente que isto acontecerá sob condições estéreis.
As referências à fermentação podem se referir a algum tipo de vírus genético que venha a ser utilizado nesse processo.
O resultado final é a estruturação do material genético e seu desenvolvimento como embrião, a que também claramente se refere a última citação do Zôhar.
O único problema seria então localizar os restos de todas as pessoas a serem ressuscitadas. Isto, contudo, poderia ser feito profeticamente.
Temos o precedente de quando o Rabino Isaac Luria, o sagrado "Ari", localizou os túmulos de muitos Tsadikim (justos) através de Inspiração Divina. Além disso, encontramos uma tradição que diz que um dos requisitos para a ressurreição é a profecia: "A Inspiração Divina (Rúach Hacodesh) traz a ressurreição."
A ressurreição corporal também pode ser possível mesmo quando não existam restos mortais.
Há muitos casos onde o corpo foi completamente destruído e não há nenhum material genético remanescente.
A coisa mais importante necessária para se reconstruir um corpo humano, contudo, é a informação — especificamente a informação contida no código genético.
Se houvesse um registro do código genético de qualquer indivíduo, seja escrito num livro ou gravado em qualquer outro meio, poder-se-ia, ao menos teoricamente, reconstruir uma cópia perfeita do corpo desse indivíduo.
Nenhum resto real seria necessário.
Tudo que uma tecnologia suficientemente avançada necessitaria seria de um registro preciso do código genético do indivíduo. Usando essa informação, moléculas estruturais de DNA poderiam ser produzidas, e estas, por sua vez, poderiam ser montadas de maneira a formar um conjunto completo de genes e cromossomos artificiais.
Uma vez que esses existissem, o processo de clonagem poderia ocorrer da mesma maneira que ocorre com cromossomos naturais.
Resta apenas uma questão.
Como recobrar esta informação?
Como obter o código genético de alguém morto há milhares de anos?
Há uma resposta óbvia: a informação pode ser transmitida verbalmente. Quando não existe nenhum outro método, a informação contida no código genético de qualquer indivíduo poderia ser revelada profeticamente. Na verdade, esta pode ser outra razão para a profecia ser uma precondição necessária à ressurreição.
Com efeito, isso pode até ter sido mencionado no Midrash que diz: "É a profecia que garante carne, nervos e ossos aos mortos. Isto também é verdade no tocante a toda carne e ossos que foram comidos por animais e pássaros."
O que esse Midrash pode estar dizendo é que, quando todo o material genético tiver sido destruído, como quando uma pessoa tiver sido devorada por animais selvagens, ele será restaurado profeticamente.
O código genético ausente poderia ser fornecido profeticamente e depois utilizado para construir cromossomos artificiais.
Uma possibilidade mais fascinante, contudo, seria que o próprio processo da profecia pudesse ser usado para reconstruir cromossomos por algum tipo de processo telecinético. Na verdade, a Escritura pode estar se referindo exatamente a tal processo quando diz que Ezequiel “profetizava” sobre os ossos secos.
Em toda essa discussão, falamos apenas do corpo.
 
Mesmo o mais perfeito clone, não importa quão exata seja a cópia do corpo, não possui as lembranças do doador original.
O mesmo é verdade aqui.
Tudo que poderíamos reconstruir tecnologicamente seria o corpo.
A reprodução das lembranças que estavam na mente da pessoa morta está além do poder de qualquer tecnologia — isto é garantido pela segunda lei da termodinâmica ["É impossível o calor de um corpo frio fluir para um corpo quente”].
Assim, mesmo que o corpo pudesse ser reconstruído tecnologicamente, a alma e suas lembranças teriam que ser repostas pelo Próprio Deus.
Isto também está claramente descrito em todas as nossas tradições.
Conforme observamos acima, esta interpretação tecnológica da ressurreição é totalmente conjectural, mesmo que se conforme muito bem às nossas tradições.
Há muitas outras afirmações talmúdicas e midráshicas que poderiam ser entendidas à luz desta interpretação, mas estas não foram incluídas neste texto devido a seu escopo limitado.
Em outro sentido, a interpretação proposta aqui pode nos dar uma nova visão a respeito do desenvolvimento científico moderno. Indubitavelmente, algumas das mais instigantes descobertas ocorreram nas ciências da vida, especialmente nos campos de biologia molecular e engenharia genética.
Como com tudo que é novo, devemos nos perguntar: Como isso serve aos objetivos de Deus?
Pois na verdade, um importante princípio fundamental afirma que, em última instância, tudo deve servir a este propósito.
Se é assim, com que finalidade Deus deu ao homem a capacidade de entender o código genético e desenvolver tecnologia apta a produzir algo como clones artificiais?
Se estas descobertas não fazem mais do que nos proporcionar um entendimento sobre a ressurreição, então elas servem ao elevado propósito de nos ajudar a entender a Torá.
Se esta tecnologia vier a ser efetivamente usada para trazer a ressurreição e, em última instância, o mundo vindouro, então veremos abertamente a ciência a serviço de Deus.
 
Por: Aryeh Kaplan