A espiritualidade frequentemente sai pela janela no instante em que entramos em uma discussão, tropeçamos em uma crise ou caímos em depressão.



A escuridão toma conta tão rapidamente que esquecemos de tudo que aprendemos.



É por este motivo que é bom estudar diariamente, ler uma passagem da torah ou algum texto inspirador, decorar uma citação ou assistir uns minutos de uma palestra para nos lembrarmos do que é realmente importante.



Dê a sua mente algo para mastigar, para que ela não mastigue a si mesma.



Yehuda Berg


Nilton Bonder

(01) 
Onde quer que a Verdade fosse, nesse ou naquele vilarejo, logo começavam a hostilizá-la. 
As pessoas a perseguiam, desdenhavam dela e lhe faziam toda sorte de desfeitas. Estavam sempre a maldizê-la onde quer que ela surgisse. 
Solitária, a Verdade se sentou no meio-fio e, inconsolável, observou de longe o sucesso que fazia a História. 
As pessoas a acolhiam e a apreciavam incon

dicionalmente, demonstrando gratidão por seus serviços. Quando a História passou diante da Verdade e a viu deprimida, perguntou: "Por que está assim?"
A Verdade respondeu: "Porque ninguém gosta de mim! Todos me maltratam e me rejeitam."
A História então reagiu: "Claro que não te tratam bem. Ninguém gosta de olhar para a Verdade nua!"
Então a História deu roupas para a Verdade vestir.
E assim História e Verdade entraram juntas no vilarejo seguinte. E a população as recebeu com grande alegria e gentileza.
Desde então, nunca mais se viu a Verdade viajar sem a companhia de uma História. 
Do livro: " Segundas Intenções" de Nilton Bonder




(02) 
Há uma história chassídica sobre uma menina que começou a chorar sem explicação. 
No início, seus pais não deram muita atenção, mas passaram-se horas e até um dia inteiro sem que ela parasse de chorar. 
Um médico foi chamado e não conseguiu acalmá-la. 
Temendo por sua saúde, os pais resolvem apelar para um rabino.
O rabino foi trazido até o local onde estava a menina e, aproximando-se dela, delic
adamente sussurrou algo em seu ouvido.
A partir dali o choro da menina foi cedendo; ela soluçava de forma cada vez mais espaçada até que finalmente parou de chorar.
Passaram-se muitos anos sem que ninguém soubesse o que o rabino havia sussurrado ao pé do ouvido da menina.
Foi só em seu leito de morte que ela revelou as palavras ditas pelo rabino naquela ocasião.
E foi isso o que ele lhe disse: "Chore, pode chorar. Mas chore apenas o que dói, nem mais nem menos, apenas o quanto dói!"

Todo choro contém uma fração que não é de dor, mas de uma segunda intenção que quer controlar a dor.
Para realizar isso o Eu tem como artifício transformar a experiência do acidente que causa a dor numa ameaça constante. O choro passa a existir por preocupação e por controle, não mais pelas consequências dolorosas do ocorrido, mas pela possibilidade de esta dor se repetir.
No choro está o truque de transformar nossa impotência, o fato de que somos vítimas, numa forma falsa de potência e controle.
Reagimos assim não só à dor, mas à injustiça da dor e à perda do privilégio que ela representa. 
Do livro " Segundas Intenções" de Nilton Bonder



(03) 
Conta-se que o Rabino de Ruzhin surpreendeu seus discípulos numa visita e os flagrou sentados à mesa num momento de ócio e bebidas. 
Percebendo sua desaprovação, um dos discípulos se apressou em explicar: 
"Certa vez o grande Rebe de Koretz, ao deparar-se com um congraçamento semelhante, comentou: 'A interação amistosa entre alunos pode ser equiparada ao cumprimento do maior dos mandamentos, até m

esmo ao do estudo!"
O Rabino de Ruzhin disse:
"Longe de mim contradizer o Rebe de Koretz, mas a analogia depende de como as coisas são feitas."
Outro aluno reagiu:
"Mas estamos apenas conversando e comendo... e estamos fazendo todas as bênçãos relativas aos alimentos de forma apropriada, então como estaríamos agindo incorretamente?"
O rabino explicou:
"Tudo depende da intenção. Se você se coloca por último de forma que os outros fiquem primeiro, então seu ato é altruísta e meritório. Se, ao contrário, você se coloca primeiro, então o que fez é egoísta e tangencia a idolatria. Se você faz algo por alguém ou para Deus, você está sublimando o feito e elevando o ato. Nesse caso, sua ação é sagrada. Quando você faz algo para avançar em interesses pessoais, você está pervertendo o feito e obliterando o divino.
Nesse caso, você está cometendo um pecado."
Não satisfeito, o discípulo disse:
"Mas o que acontece se, digamos, o ato é em si pecaminoso, mas a intenção é boa.., algo como se eu falar mal de uma pessoa para proteger um amigo. Isso é um pecado ou não?"
O rabino respondeu:
"A intenção é tudo! Se sua intenção foi em nome dos céus — ou seja, para o bem de outro e não para se beneficiar — então até mesmo um ato equivocado pode evocar o que é sagrado."
Do livro: "Segundas Intenções"

(04) Um discípulo reclamou ao rabino de Ger: "Há vinte anos me esforço e não alcanço a realização de um artesão que se torna mestre de sua arte, seja pela criação de algo de melhor qualidade ou de algo que seja feito com maior eficácia e rapidez. Da mesma forma que era há vinte anos, assim sou hoje."
O rabino respondeu: "Veja o caso de um boi, por exemplo. Todo dia pela manhã sai de seu estábulo, vai 

para o campo, ara a terra e é levado de volta a seu estábulo. Isto é feito dia após dia e nada muda em relação ao boi — porém, a cada ano, a terra arada dá sua colheita."

O desejo do discípulo de estar aperfeiçoando a si mesmo, como se estivesse esculpindo a si próprio, é uma ilusão.
São os campos arados, ou seja, nossos feitos, que terão impacto sobre nós mesmos e sobre o mundo.
São eles a nossa construção e não a construção de nós mesmos. 
Do livro "A Arte de Se Salvar"

(05) Uma vez por ano, a sinagoga onde trabalhei organizava uma visita de familiares a um antigo cemitério já desativado.
Por ser um cemitério antigo, os parentes que vinham prestar esta homenagem eram todos muito idosos.
Saímos juntos de ônibus e, antes de seguirmos para nosso destino, entreouvi uma conversa de um grupo de homens. Eles perguntavam uns aos outros sobre suas idades.
Todos já octogenár

ios, tinham uma aparência muito envelhecida, com exceção de um senhor. E justamente aquele que estava em melhores condições físicas revelou-se o mais velho do grupo. Quando o ônibus partiu, sentei-me junto a este senhor e, comentando ter escutado a conversa, indaguei sobre o segredo de sua longevidade e saúde. Ele então confidenciou: "O segredo é o seguinte: meus filhos pensam que sou louco, mas ainda hoje faço planos para o futuro, a médio e longo prazo. Compro imóveis para pagar em dez anos e me programo para o futuro de uma tal maneira que nem eles têm coragem de fazer. Eles têm medo. Mas penso que a mim me cabe fazer planos, é Deus que sabe quando me chamar. É assim hoje, mas sempre foi assim, mesmo quando eu era jovem."
O segredo deste homem se resumia a uma relação saudável com seus sonhos.
Sua atitude não era nem alienada nem fantasiosa, mas exibia uma proporção estética e artística, cuidadosamente moldada para si, sobre o ganho e a perda.
A "Arte de se Salvar" diz respeito a essa relação muito precisa e acurada entre o desejo do ganho e a disposição à perda. Caso essa relação não fosse apurada e apropriada, ele seria devorado pelo pavor angustiante de projetar expectativas e apostar apenas na possibilidade de suas realizações.
Um comportamento como este só poderia ser assumido por uma pessoa que nunca tivesse se deparado com qualquer perda (inconcebível a um octogenário), ou alguém muito bem graduado na escola da vida e de su de Nilton Bonderas perdas. Ou seja, teria de ser alguém que tivesse absorvido dosagens saudáveis de morte para poder suportar este tipo de sonhos e expectativas.
Teria de ser alguém que soubesse "perder para o universo". Uma pessoa de idade muito avançada assemelha-se a um indivíduo consciente de sua terminalidade. Sonhar nesta sintonia só é possível no mais refinado comportamento humano, qual seja, viver a vida, aceitando a sombra circundante que também a define.
Este comportamento representa entrar no jogo da vida para ganhar, amando a perda com a mesma intensidade que se ama a conquista, sabendo que uma é o avesso da outra e que é impossível ser grato por uma sem também o ser pela outra.
O Deus que Dá e o Deus que Tira é, na mesma medida, o Deus da vida.
Saber perder para o Universo é a única atitude que nos permite tomar posse das graças e bênçãos em nossas vidas. 
Do livro "A Arte de Se Salvar" de Nilton Bonder

(06) Alerta dos Salmos: "Compre a verdade, mas não a venda!"
Para evitar a degradação que a imaginação pode impor em nossa relação com a existência devemos ter esse cuidado.
Explica o Rabino Hirsch de Ziditchov que o comprador quer sempre diminuir o valor da mercadoria enquanto o vendedor quer aumentá-lo.
A atitude para com a verdade deve ser a de um comprador e nunca a de um vendedor.
O primeiro sempre terá um olhar crítico enquanto que o segundo uma atitude condescendente para com os defeitos de seu produto. 
Do kivro: "Segundas Intenções" de Nilton Bonder

(07) É costume os discípulos passarem as tardes de sábado em torno de seu Rebe, recebendo ensinamentos da Torá.
Num destes sábados um homem veio até a tish (a mesa) do Rebe de Kobrin, chamando sua atenção.
Ele chamou seu ajudante e perguntou: "Quem é este sujeito que está ali naquele canto?"
Quando ouviu o nome do discípulo, ele disse: "Eu não o conheço."
"Mas Rebe, é claro que conhece...", disse o

 atendente. "Ele comparece quase todos os sábados e o senhor já conversou com ele em várias ocasiões."
E o atendente continuou relembrando sobre o tal homem, sobre seus pais, e também sobre diversos incidentes que pudessem reacender a memória do Rebe a seu respeito.
Finalmente, o Rebe de Kobrin chamou o homem para junto de si e disse:
"Estou tentando me lembrar quem você é e estou tendo muita dificuldade. Só agora me dei conta de qual é o problema.
Preste atenção: a essência de uma pessoa está em seus pensamentos.
Sempre que focamos nossa mente, essa é a pessoa que somos.
Todo este tempo venho reparando em você e percebo que sua mente tem vagado de um desejo para outro.
Primeiro você fica faminto por isso, depois por aquilo.
Não há limite para os seus desejos. Tudo o que pude ver foi a incessante fome por algo.
Enquanto você agir desta maneira fica difícil reconhecer se você é um homem que por acaso tem uma boca, ou uma boca que está disfarçada de homem."
Nesta história, o Rebe alerta para o engodo contido na busca por gratificação ou pelas fomes que se revestem em ansiedade. Referenciar-se apenas por essas fomes produziu tamanha ausência no homem a ponto de não permitir que o rabino o reconhecesse.
Do livro "Segundas Intenções" de Nilton Bonde

(08) Disse o rabino de Kobrin:
Quando sofremos alguma adversidade, não devemos dizer: "Isto é ruim", pois Deus não dispensa sobre nós coisas ruins.
Devemos dizer, no entanto: "Estou passando por uma experiência amarga", tomando o revés como um remédio amargo que um médico prescreve, a fim de curar o paciente.”

Para que esta transição seja possível, dependemos também da capacidade de discernir que o 

bom não é "bom", mas "doce".
Deus, ou o Universo, não é responsável pelo bom, pois este também é um conceito nosso.
O que percebemos como doce nem sempre é bom à luz de 'outra perspectiva’. Percebemos assim que nós mesmos somos os maiores propagadores da noção de caos — o território no qual o bom se dissimula em ruim e o ruim em bom.

O bom é da dimensão do insaciável; o doce, não.
A doçura perde sua própria intensidade na ausência do amargo.
Os gourmets concordariam: o amargo e o doce são inseparáveis.
É só e somente só ao não saber dosá-los que invadimos o território do que é ruim.
Do livro: “A Arte de Se Salvar” de Nilton Bonder

(09) Dizia o Rabino Alexander:”Tristeza é a pior qualidade de um ser humano.
É o atributo de um egoísmo incurável.
Quem é triste pensa assim: algo deveria estar destinado a mim... ou alguma coisa está erroneamente sendo impedida de vir a mim... Seja em relação a coisas materiais ou espirituais, tudo sempre se resume ao 'eu' e a 'mim'”

A tristeza é o sentimento que experimentamos diante de perdas.

Sequer é necessário tratar-se de uma perda real, bastando apenas o temor da perda.
Em última instância, essas perdas simbolizam sempre a própria perda de si.
Triste, o ser humano se torna reptiliano — tem o discernimento de um homem e o terror de um réptil. Sua grande proteção é a mentira e a ilusão. Com isso fica exposto e ameaçado, mas se ilude de que está oculto e bem protegido.
Em seu devaneio não sabe que todos os predadores o vêem e se, até então, exercia o mero risco de tomar sol, agora a ilusão o coloca em grande perigo. 
Do livro "Código Penal Celeste" de Nilton Bonder



(10) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
O riso é a última fronteira antes da miséria.
Enquanto nos restar o riso nos resta uma porta aberta aos tesouros deste mundo. Este critério é bastante interessante se prestarmos atenção na quantidade significativa de pessoas com condição financeira segura, mas que perderam a capacidade de rir e sorrir.
Estas pessoas são miseráveis no sentido literal da palavra: vivem em penúria, em estado lastimável.
São pessoas sedentas e famintas mesmo dispondo de bebida e comida.
A indigência da alma é muito mais severa do que a do corpo.
Ao corpo se pode oferecer comida e bebida, já para a alma, sua sede é falta de vontade de beber e sua fome falta de vontade de comer.
Por: Nilton Bonder


(11)Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
Nunca temos tempo para fazer as coisas corretamente, mas sempre temos tempo para refazê-las.
Jack Bergman
É bastante comum acreditarmos não termos tempo para fazer as coisas com a precisão e o cuidado que elas requerem.
No entanto, quando tudo sai errado, sempre encontramos o tempo necessário para refazer uma ou mais vezes o que não ficou bom.
Criar uma cultura de maior atenção e precisão é um refinamento que não perde tempo, mas, ao contrário, ganha tempo.
A razão de aceitarmos a tirania da correria e do descuido se origina          educação.
É fundamental orientarmos nossos filhos para o tempo necessário em seus afazeres.
Sem perfeccionismo, fazer certo é sempre mais rápido.
Por: Nilton Bonder



(12) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
O riso é a última fronteira antes da miséria.
Enquanto nos restar o riso nos resta uma porta aberta aos tesouros deste mundo. Este critério é bastante interessante se prestarmos atenção na quantidade significativa de pessoas com condição financeira segura, mas que perderam a capacidade de rir e sorrir.
Estas pessoas são miseráveis no sentido literal da palavra: vivem em penúria, em estado lastimável.
São pessoas sedentas e famintas mesmo dispondo de bebida e comida.
A indigência da alma é muito mais severa do que a do corpo.
Ao corpo se pode oferecer comida e bebida, já para a alma, sua sede é falta de vontade de beber e sua fome falta de vontade de comer.
Por: Nilton Bonder



(13) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
Cuide bem de seus minutos e suas horas estarão bem cuidadas.
- Lord Chesterfield
Se você tomar conta do seu presente, sentirá que seu futuro lhe será próprio.
O equilíbrio existe quando não nos deixa levar pelos sonhos e pelos planos, mas nos faz construí-los desde aqui, deste momento.
Sem este elo entre os minutos você se perde e se confunde.
Quem cuida de suas horas desperta décadas depois descobrindo que escreveu uma bela biografia, mas que não viveu a vida realmente.
Saiba conter suas expectativas que o empurram para pensar nas horas.
O campo conhece este segredo.
A cidade vive de horas, o campo dos minutos.
Por: Nilton Bonder


(14) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
O tempo é um grande mestre, mas infelizmente mata todos os seus discípulos.
— Hector Louis Berlioz
Salomão, o sábio dos sábios, já definiu há dois mil e quinhentos anos em Eclesiastes: a sabedoria é vã quando o seu pretendente descobre que seu maior instrutor é o tempo.
O que nos habilita e nos instrui, também nos mata.
O aumento do tempo — a sabedoria — é o manjar e o veneno.
Os tolos dirão: de que adianta então ir buscá-la?
O sábio retrucará: é melhor a morte saciada e refinada do que a morte por inanição.
Por: Nilton Bonder


(15) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
Tudo nesta vida demora sempre mais do que imaginamos, menos a própria vida.
Uma das experiências de permanência em expansão é o fato de que o tempo nos prega uma peça: tudo demora, menos a vida.
As crianças acham que demoram para crescer, os adultos que demoram para vencer.
Nossas esperas são intermináveis e irritantes, no entanto, a vida passa galopando. Ela escoa por nossas mãos e enquanto o velho se atormenta pelos dias que tardam a passar, olha o passado com uma expressão de perplexidade.
Como podem ter passado tão rápido todas estas esperas que pareceram intermináveis?
O paradoxo da vida é que as demoras são rápidas demais para dar conta de nossa finitude.
 Por: Nilton Bonder



(16) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
O tempo é a maneira que tem a natureza de não permitir que tudo aconteça de uma única vez.
É interessante compreendermos a noção de tempo pela perspectiva do equilíbrio de expansão.
Para esta, a necessidade do tempo não é outra senão oferecer uma grande avenida ao longo da qual as coisas podem acontecer.
Se tudo acontecesse ao mesmo tempo não haveria lugar, por exemplo, para alegria ou tristeza.
Quando um bebê nascesse teríamos que chorar por sua morte mais adiante.
Esta é a razão pela qual o livro de Eclesiastes no cânone bíblico diz: Há tempo de plantar e colher, amar e odiar, chorar e sorrir.., há tempo certo para tudo.
Somente porque tudo não acontece simultaneamente, se faz possível a vida.
Por: Nilton Bonder



(17) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
Tudo neste universo é vibrante.
Quando algo nos parece sem movimento, estático, pode apostar: é em nós mesmos que se origina este sentimento.
O detalhe mais irrelevante contém em si maravilhas inimagináveis.
Esta é a razão pela qual um cientista pode passar a vida inteira estudando uma questão que nos parece sem importância, ou um historiador vasculhar minúcias no passado.
Mas da mesma maneira que podemos revelar as maravilhas de um detalhe, somos capazes de contagiar o universo com nosso desinteresse.
A vida em si é interesse, e todo o comportamento de desinteresse contagia o mundo dessa perspectiva.
Ele se torna preto e branco, sem nuanças e sem sentido.
 Por: Nilton Bonder



(18) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
O amor domestica o espírito mais selvagem e torna selvagem o mais dócil.
Alexis Delp
O amor propicia um equilíbrio que não é facilmente reconhecido.
Há sempre alguma alteração considerável no comportamento das pessoas e por isto achamos que amar desequilibra.
Muito pelo contrário.
Os mais selvagens e os mais acomodados encontram maior equilíbrio, cada um tendendo a temperar seu comportamento.
O amor, em outras palavras, nos tira do aprisionamento em nós mesmos.
Ao desejarmos outra pessoa temos que abandonar hábitos e confrontar-nos com os desafios de querer e ser querido.
Ninguém resiste a este confronto sem experimentar mudanças profundas.
 Por: Nilton Bonder



(19) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
A música lava nossa alma da poeira que fica da vida diária.
Red Auerbach
O simples viver de um dia cria na alma o mesmo que a poeira e o suor produzem no corpo.
Trata-se do desgaste das interações do dia, dos sonhos, das frustrações, das realizações e das expectativas.
O refinamento da música está para a alma como a água esta para o corpo.
O solvente universal que é a água limpa, descarrega e recicla.
O mesmo faz a música que pode dissolver energias — trazer alegria aos tristes, afeto aos racionais, sonhos aos acomodados e leveza aos pesados.
Todo mundo antes de chegar em casa deveria ouvir música para que sua alma não chegasse suada e com mau hálito.
É profunda falta de refinamento não ouvir música com constância.
É como não tomar banho.
Não subestime a poeira da rotina, se não houver asseio constante ela se torna insalubre.
Por: Nilton Bonder


(20) Que o Eterno te Abençoe e te guarde.
Que o Eterno te Ilumine e te dê graça.
Que o Eterno te dirija a atenção e te traga paz
Você realmente cresce no dia em que ri de si mesmo pela primeira vez.
— Ethel Barrymore
O ato sagrado de rir de si mesmo inaugura a possibilidade da autocrítica generosa e da ironia com ternura.
Uma de nossas grandes dificuldades está em conjugar a contração e a expansão num só movimento.
A gargalhada de si mesmo é um desses raros instantes onde isto é possível.
Quem ri de si mesmo está se expandindo e ao mesmo tempo se contraindo.
Isto porque rir de si mesmo é uma forma de ser severo consigo sem sê-lo.
Permite que possamos explorar cada vez mais nossas limitações.
Quanto mais rirmos de nós mesmos, sem sarcasmo e sem desespero, mais crescemos.
Não há sábio que não tenha descoberto este segredo.
Por: Nilton Bonder


(21) A liberdade significa responsabilidade.
Esta é a razão pela qual a maioria das pessoas lhe tem horror
Bernard Shaw
O ser humano está sempre sabotando possibilidades de liberdade porque a teme profundamente.
Não há um só indivíduo que na sua intimidade não trame contra a liberdade.
A liberdade nos assusta porque ela pressupõe estarmos nus e desarmados para a vida.
Significa permitir-nos aquilo que só é possível com muita responsabilidade.
É, portanto, preferível suprimir a liberdade e mantê-la sob controle para que esta não nos obrigue a enxergar com tanta clareza nossas limitações e fraquezas.
A ditadura que reprime na rua teme a responsabilidade que se exige do poder.
O pai que reprime em casa teme a responsabilidade de ser um modelo à altura da liberdade concedida.
Por: Nilton Bonder



(22) Pessoas imaturas obedecem pelo medo; pessoas maduras, pelo amor
Aristóteles
Atribuímos a disciplina ao mundo da restrição e do medo.
Mas há uma disciplina que se origina no amor.
É uma disciplina que nos obriga a fazer o que queremos fazer.
Normalmente pensamos que a disciplina nos impõe algo que não queremos fazer. Há pessoas, por exemplo, que dirigem com cuidado porque as multas estão altas e porque podem perder sua carteira de motorista.
Fazem isto por medo.
Há outras que têm grande prazer em ter cuidado.
Não que isto não lhes tenha custos em atenção e liberdade.
Mas elas entendem que este custo é bastante inferior ao custo que bombeiros e médicos de ambulâncias tanto conhecem.
 Por: Nilton Bonder


(23) O amor é como o fogo.
Nunca se sabe se ele vai aquecer sua alma ou incendiar sua casa!
-Joan Crawford
A contração em expansão é muito bem representada pelo elemento fogo.
Todo aquecimento é produzido por energia.
Como o coração bate mais forte com a paixão, também na dimensão das partículas atômicas o calor é indício de mobilização.
Esta energia pode ser canalizada para coisas muito positivas ou negativas.
O amor pode produzir o que de mais especial existe neste mundo, ou o mais terrível.
Não há violência maior do que aquela que nos causam as pessoas amadas.
As grandes mágoas, decepções e desapontamentos são deixados por pessoas que estão muito próximas de nós.
Reverter o fogo destrutivo à sua condição de calor e luz e a verdadeira arte de amar.
Por: Nilton Bonder


(24) No verdadeiro amor queremos o bem da pessoa amada. No falso amor queremos a outra pessoa.
— Margaret Anderson
Há formas de amar que produzem sentimentos estranhos tal como a insegurança, a obsessão e a dependência.
A prova maior para qualquer "amor" é se estamos querendo o melhor para a pessoa amada, ou o melhor para nós.
Somente quando estamos prontos a sacrificar nossos próprios interesses por aqueles da pessoa amada é que experimentamos o amor.
No verdadeiro amor uma pessoa abre mão de coisas que lhe são muito caras.
Não há dúvida de que deve haver troca, mas quem ama deve estar sempre mais disposto a doar do que a receber.
Amar pressupõe uma embriaguez momentânea na qual nos permitimos gostar mais do outro que de nós mesmos.
 Por: Nilton Bonder


(25) Amor e tosse não se consegue esconder
— George Hebert
O amor e a tosse são manifestações expansivas.
Tentar conter a tosse resulta em movimentos físicos que nos delatam mais do que a própria tosse.
O mesmo podemos dizer do riso.
O riso contido acaba explodindo em gargalhada numa intensa experiência de descontrole.
O amor oculto promove gestos, olhares, intenções, hesitações e movimentos desajeitados.
Acreditamos que revelar nosso sentimento nos coloca numa situação de desvantagem.
Como se numa transação comercial, não queremos deixar que nosso real interesse transpareça para não negociar em desvantagem.
No entanto, é importante perceber que o amor não se esconde.
A tentativa de escondê-lo nos faz manipuladores, insinceros e um pouco tolos.
Tal como quem se contorce para não tossir, esconder em demasia o amor nos enfeia.
 Por: Nilton Bonder


(26) O amor é um conflito entre reflexos e reflexões.
— Mangnu Hirschfield
O amor é impulsivo mas conhece o equilíbrio.
Trata-se de um equilíbrio que não é racional e não é controlado.
É o que os sábios do passado chamavam de "amor sábio".
O amor sábio não apenas se consome numa paixão ardente, mas sabe se administrar e se preservar.
É um amor que repara nos detalhes, que dá presentes, que enfatiza certos momentos.
O amor tolo é o da expectativa, da demanda e da possessão.
Ele desenvolve fortes sentimentos de ciúmes e busca controlar tanto o sujeito amado como o destino do amor, e sufoca uma relação.
Um amor sábio controla mais solto.
Faz carinho no momento certo e restringe carinho no momento certo.
Reflexo e reflexão caminham juntos.
 Por: Nilton Bonder


(27) A primeira metade de nossas vidas é arruinada por nossos pais, a segunda por nossos filhos.
— Clarence Darrow
Se por um lado o amor é o combustível da existência humana, por outro gera as maiores preocupações e os maiores sofrimentos.
As mágoas que o amor produz não têm par em nenhuma outra experiência humana.
Não há, portanto, piores feridas para a alma do que aquelas cometidas por pais, irmãos, melhores amigos e filhos.
Em grande parte as terapias se ocupam dos sofrimentos causados por pais e por filhos.
É imprescindível criarmos um futuro de pais e de filhos menos violentos uns com os outros.
Apesar de todos os seus custos, quem abriria mão do prazer de ter sua vida "arruinada" pelo choro de um neném na madrugada?
Mesmo na contração o amor é prazeroso.
 Por: Nilton Bonder


(28) "Afinal, se considerarmos o ditado "de boas intenções o inferno está cheio", temos de considerar que também "de más intenções o paraíso esta cheio”. 
Não é a natureza da intenção que condena, não há certos e errados. 
A questão é se essa intenção responde pela integridade de quem somos ou não; se é plena ou parcial. 
Como é o julgamento? 
Diz o Talmud: "Em nosso Julgamento Celeste aparecem todas a

s entidades relevantes. Elas testemunham sobre sua própria essência. Quando fazemos algo com muita intensidade e presença, criamos um anjo saudável. Quando fazemos algo pela metade sem o coração pleno, criamos um anjo fraco e anêmico”
Diante de nós aparecem todos esses anjos que criamos.
Eles têm a nossa cara no momento em que a vida foi vivida por inteiro ou dissociada.
Nós os reconhecemos com um misto de dor e embaraço.
A intenção do julgamento não é nos humilhar ou castigar, como já vimos.
Pretende vulnerabilizar nosso coração para nos resgatar.
Dizia o Rebbe Lentzner: "É preciso ter o coração partido para se ter um coração inteiro."
Só quando nosso coração se quebra diante das partes de nossa vida para as quais nos tornamos frios e indiferentes, só então os sintomas nos oferecem o diagnóstico e os possíveis caminhos de cura."
Do livro "Código Penal Celeste" de Nilton Bonder


(29) Diz o Talmude que quatro tipos de pessoas não conseguem ver a Shechiná (a presença divina): o cínico, o hipócrita, o malicioso e o mentiroso. 
Sua incapacidade de vê-la se deve ao fato de que sua própria presença é tão avassaladora que devora tudo que dela se aproxima. 
Portanto, o arrependimento é instrumento da consciência porque corrói o cinismo, a hipocrisia, a malícia e a mentira. 
Coibida, a consciência percebe, para além da presença, que na existência não há lugar apenas para o Eu. 
O sábio lida com o acerto; o profeta, com o temor; o observante com o sacrifício e o justo com o arrependimento. 

Em todos há uma lei explícita ou implícita que subjuga o livre-arbítrio.
Os efeitos dessa restrição são a diminuição do Eu e o aparecimento da existência em seu contorno. Estamos diante da suprema faculdade da consciência que se constitui na nobreza de nossa identidade redimida da presença asfixiante.
Quando o Eu cede lugar, aparece Deus. Não como uma crença, mas como uma aparição. Ao comer da Árvore da Consciência, não foi só o homem que desapareceu, levando o Criador a perguntar: "Onde estás?"
Para o homem também Deus desapareceu ocultado pelo Eu e sua presença.
O mais poderoso arbítrio do livre-arbítrio é coibir-se.

Do livro: Segundas Intenções de Nilton Bonder


(30) Conta-se que Reb Zussia certa vez perguntou a Reb Elimelech:
"Dizem os textos sagrados que todas as almas de todos os indivíduos estavam contidas na alma de Adão, o homem original. Isso quer dizer que a sua alma e também a minha alma estavam em Adão. Como foi possível que você e eu permitíssemos que ele pecasse e comesse da Árvore da Sabedoria?" 
Reb Elimelech respondeu: 
"Não só eu não impedi Adão de comer do fruto, como eu o encorajei. Veja que a serpente havia mentido para ele, dizendo que Deus havia interditado o fruto porque no momento que alguém o comesse seus olhos se abririam e esse alguém seria como Deus (Gen 3:5). Se Adão não tivesse comido do fruto, ele nutriria para sempre este pensamento: 'Tivesse eu comido do fruto e Eu seria igual a Deus!' E ele viveria para o resto de sua vida com esta heresia. 
Eu decidi, na ocasião, que seria melhor ele comer do fruto para que descobrisse que nenhum ser humano pode se igualar a Deus!"
Do livro: Segundas Intenções de Nilton Bonder


(31) Há duas coisas boas nesta vida - liberdade de pensamento e liberdade de ação. 
(W. Somerset Maugham) 

O que mais podemos desejar do que estas duas liberdades? 
Pensar livremente não quer dizer apenas em relação aos outros. 
Diz respeito a nós mesmos e ao quanto não nos permitimos pensar sem censuras. Por outro lado, agir livremente também não diz respeito apenas aos outros, mas a nós mesmos. 
Isto porque somos muitas vezes nós que nos reprimimos e nos recalcamos. 
Poder pensar e agir livremente é o que de mais maravilhoso existe neste mundo. Aliás é isto que buscamos tão fervorosamente viabilizar em nosso mundo. 
O problema é que, para isto, temos que pensar e agir livremente.



(32) Quando perdemos o direito a ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres. — (Charles Hughes) 

A maior medida de liberdade é a aceitação da diferença. 
Muitas pessoas concebem a sua liberdade com a expectativa de que os outros sejam iguais a elas. 
Não se trata apenas de uma questão de tolerância. 
Tolerar é um esforço para conter o desprezo e a indignação. 
Isto em si não gera a liberdade, mas cria uma convivência tensa pronta a ser rompida com violência e preconceito.
A liberdade depende da apreciação.
Ou seja, da profunda consciência de que a diferença do outro é a verdadeira guardiã de nossa liberdade.
A liberdade começa em casa, passa por nossos amigos e termina no respeito ao estranho.



(33) A maior diferença entre o tempo e o espaço é que você não pode reutilizar o tempo. (Merrick Furst)

Nossa consciência está se expandindo bastante sobre a noção de permanência no espaço. 
Sabemos graças à ecologia que a reciclagem ou a biodegradação de alguns materiais pode levar um ano, uma década ou mesmo um século. 
Sabemos que certos produtos químicos podem levar milênios para ser reabsorvidos e que a radiação pode inutilizar grandes áreas por muito tempo.
Estamos aprendendo sobre como a permanência se faz sobre o espaço.
No entanto, ainda somos profundamente ignorantes sobre a permanência e o próprio tempo.
Quanto tempo leva para recompor um tempo vivido?
Quanto tempo leva para sarar uma oportunidade perdida?



(34) O dinheiro é um terrível patrão, mas um excelente empregado. (P. T. Barnum)

O equilíbrio na questão do dinheiro depende fundamentalmente de não se permitir que este seja visto como uma meta, mas sim como um instrumento. 
E este é nosso grande problema com o dinheiro: com facilidade ele troca estas posições. 
Quando nos damos conta estamos vivendo por conta dele, e não o contrário. Compramos um carro e não percebemos que junto com a utilidade e o prazer que este oferece vem também manutenção, gasolina, seguro, multas, impostos, estacionamentos etc... 
Quando nos damos conta estamos trabalhando para manter o carro. 
Um funcionário virou patrão.


(35) A liberdade é ficar livre das coisas que não gostamos para tornar-nos escravos daquelas que gostamos. (Emest Benn)

A noção mais comum de liberdade é "não ter que fazer aquilo que não se quer". Sonhamos com a total liberdade quando somos donos de nosso próprio nariz. 
No entanto, não percebemos que fazer tudo o que queremos nos torna reféns de nossos próprios desejos. 
A verdadeira liberdade deve ser temperada de realizações daquilo que queremos, mas também de envolvimento e compromisso com o outro, o que nos leva a fazer o que não queremos. 
O sentimento de que devemos optar livremente por fazer coisas que não queremos nos liberta da tirania da nossa vontade.


(36) A liberdade é apenas um sinônimo para nada ter a perder (Kris Kristofferson)

Esta frase que marcou os anos 1960 fala sobre uma importante forma de segurança. 
Nada ter a perder é um estado que nos permite autenticidade. 
Quando temos algo a perder conseguimos mascarar a realidade não só aos outros, mas pior, a nós mesmos. 
Quem não tem nada a perder experimenta uma segurança que nem mesmo os mais ricos deste planeta conhecem. 
Infelizmente só usamos esta expressão — não tenho nada a perder — quando estamos ameaçando colocar fogo no circo. 
Não deveria ser assim. 
Poder dizer isto sem mágoa e sem destrutividade é conhecer uma paz muito profunda


(37) Você só pode ser livre se eu sou livre. (Clarence Darrow)

Na prática não acreditamos nesta frase. 
Nossa conduta é representativa de quem acredita ser possível ser livre sem ter que se preocupar com a liberdade do outro. 
Infelizmente, muitos se sentem até mais livres se os outros estiverem limitados e insatisfeitos. 
É uma fraqueza humana nos sentirmos mais abençoados quando as pessoas a nossa volta são menos afortunadas.
Esta é uma barreira para a criação de um mundo melhor.
É um grande desafio humano perceber que sua alegria só poderá ser plena se não estiver cercada de tristeza.
Exercite-se na difícil arte de ficar feliz em meio a pessoas felizes e descobrirá, ultrapassados os bloqueios, uma alegria muito especial.


(38) Trate de compreender primeiro, para se fazer compreender depois. 
(Beca Lewis Allen) 

Sem que tenhamos feito o esforço para compreender os outros, fica mais difícil fazer com que nos compreendam. 
Esta é uma regra básica de refinamento nas comunicações. 
Se você perceber que uma questão se torna motivo de mal-entendido, não se esforce em demasia para fazer com que compreendam seu ponto de vista. 
Faça, ao contrário, muito esforço para compreender o ponto de vista do outro. Quanto mais você entender o que o outro está dizendo, mais fácil será para você colocar a sua opinião de forma a que também se faça compreender.
Quem ouve bem, fala bem.
A surdez é uma limitação maior que a mudez.


(39) O tempo passa, você diz? Mas não é bem assim. 
Nós passamos, o tempo fica. 
(Austin Dobson)
Queremos a todo o momento esquecer que somos mortais e finitos. 
A ideia de que é o tempo que se desloca nos dá a sensação que estamos parados e que não passamos. 
Pois o tempo aí está. 
Somos nós que estivemos nos anos 1970 ou 1980 e que nos deslocamos até os 1990. 
Este caminho de nosso deslocamento através do tempo tem sempre um ponto final de chegada.
Portanto, quando olhar no relógio saiba que o tempo não passou rápido ou devagar. Foi você que se deslocou assim.
Absurdo como o conceito de que é o sol que se põe, quando é a terra que gira, o passar do tempo oculta nossa própria passagem. 


(40) A chave para compreender os outros é primeiramente compreender a si próprio. 

Toda a compreensão que temos dos outros deriva de nós mesmos. 
Quando nos identificamos com alguém e podemos aceitar sua forma de ser, significa que encontramos em nós mesmos elementos semelhantes ao outro. Identificamo-nos com os outros quando entendemos existir em nós as mesmas limitações, angústias e ansiedades que experimentam.

Por esta razão, para que este mundo seja mais tolerante é fundamental que as pessoas se conheçam mais.
O autoconhecimento é um dos movimentos políticos menos reconhecidos e computados nas análises das forças que transformam este mundo.
A paz só é possível entre pessoas que se conhecem. 


(41) Se você pensa que é livre, então realmente não pode se libertar. (Rarn Dass)

Uma das maiores motivações para crescer e amadurecer é a insatisfação. 
O reconhecimento de que ainda não chegamos lá, de que ainda não somos totalmente livres, é fundamental para a qualidade de nossa vida. 
Quem se acha livre, se aliena. 
Os aprisionamentos são eternos para o ser humano. 
Apenas D'us é total e absolutamente livre. 
Nós humanos estamos sempre servindo ao mestre autoritário que é nosso ego. Sentir-se livre é uma bênção. 
Mas se este sentimento perdurar por muito tempo, saiba que ele pode ocultar medo e alienação. 
A contração de nossa eterna escravidão é essencial para a expansão. 



(42) Planeje para este mundo como se você fosse viver para sempre, mas planeje para o mundo vindouro como se você fosse morrer amanhã. (Ibn Gabirol)

Para se viver em paz como um mortal deve-se estar em dia com sua finitude. 
O fim não é assustador quando se vive cada momento sem a preocupação de quantos mais ainda se contabilizará. 
Esta entrega que permite fazer planos é fundamental. 
Certa vez perguntei a um homem com mais de noventa anos qual o segredo de sua longevidade. Ele me disse que fazia planos e investimentos a longo prazo.
Para que se possa viver assim, fazendo planos a longo prazo, sem medo da morte, é necessário que se esteja moral e psiquicamente sem dívidas.
Só quem tem tudo pronto para partir é livre para querer permanecer.


(43) Até para azar se precisa sorte. 
As probabilidades do pior acontecer são muito pequenas, talvez impossíveis. 
Isto porque sempre poderia ser pior, salvo uma única situação. 
É sempre uma questão de reconhecermos quanta sorte tivemos em nosso azar. Aliás estas duas palavras — sorte e azar — são criações do ser humano para medir o quão longe ou próxima de nossa vontade passou a realidade. 
Como nossa vontade nem sempre é o melhor para nós, estas medidas são bastante imprecisas. 
Como então compreender o que nos acontece? 
Talvez o melhor que possamos medir é, de forma otimista, a sorte de nosso azar; e, de maneira pessimista, o azar de nossa sorte. 
Por: Nilton Bonder


(44) Com o bom-senso de outros, não se pode viver 
Um dos instrumentos mais importantes do desenvolvimento de uma pessoa é seu bom-senso. 
Ele nos permite não apenas ponderar, mas também intuir. 
Nosso bom-senso não é infalível, mas está ancorado em nossa experiência de vida. Ou seja, reflete o que a realidade nos ensinou. 
Assim sendo, o bom-senso erra, mas não por muito tempo. 
As chances de acerto através do bom-senso se tornam tão maiores como a persistência. 
Por isto quem é fiel a seu bom-senso pode prever acontecimentos. 
E quando não puder prevê-los e for surpreendido pela vida, poderá somá-los a seu bom-senso e enriquecê-lo. 
Por: Nilton Bonder



(45) Quando faltar manteiga para o pão ainda não é a miséria. 
Diante de aperto em qualquer questão de segurança mantenha sempre a perspectiva.
É comum ficarmos deprimidos com qualquer perda ou diminuição de nosso poder aquisitivo.
Mas a vida, em particular o sustento, tem seus altos e baixos.
Faz parte... e quem nunca perdeu com certeza não sabe o que é ganhar.
O importante é que, em contração, deve-se ter uma postura de força e gana, nunca de desespero e desânimo.
A verdadeira miséria é daqueles que perdem sua autoestima.
Para estes, mesmo o pão, por falta de qualquer complemento — manteiga, geleia ou o que seja —, é experimentado como miséria.
Por: Nilton Bonder


(46) Emprestar deve ser com testemunhas; doar sem testemunhas. 
É uma forma de sensibilidade saber quando oficializar algo afirmando compromissos e quando não fazê-lo. 
"Emprestar" são todas as situações em que temos a expectativa de algum retorno específico; "doar" é quando este retorno fica para a vida decidir. 
Há momentos em que doamos como empréstimos e há empréstimos que fazemos como doações.
Ambos são péssimos.
A sabedoria de distinguir empréstimos e doações é fundamental.
No empréstimo há fé através das testemunhas; na doação, a fé está em não tê-las.
Por: Nilton Bonder


(47) Se feito na hora certa, não é um pecado. 
Um dos segredos (essência) mais bem escondidos na sociedade ou por aqueles que nos educam é o fato de que nada é por definição um pecado. 
O pecado ou o erro só existem em dadas condições. 
Há sempre uma ocasião ou uma situação onde o que é entendido como um pecado pode ser a melhor forma de agir naquele dado momento. 
Mas este segredo temos que descobrir sozinhos, pois ninguém se sente autorizado a revelá-lo.
Isto porque da boca do outro este segredo é sempre uma justificativa para seus próprios atos.
É a descoberta pessoal que possibilita conhecer a duplicidade desta essência da essência.
Conhecê-la é o derradeiro encontro com a compaixão.
Por: Nilton Bonder
(48) Quem gosta de seu trabalho, não fica sem trabalho. 
Num mundo de tanto desemprego esta é uma afirmação que pode ser de grande insensibilidade. 
No entanto, ela traduz uma dica fundamental para quem está tendo dificuldades em encontrar trabalho. 
Ao contrário do que pareceria, mais do que nunca as pessoas devem buscar fazer o que de melhor fazem. 
Há sempre alguma tarefa na qual somos bons. 
Por mais estranha que ela seja, por menos lucrativa que ela pareça ser, entregue-se a ela. 
Pensar no que os outros precisam ou esperam é o que todos os desempregados fazem todo dia. 
O que você faz bem, só você sabe fazer.
Por: Nilton Bonder


(49) Não ter escolha também é uma escolha. 
Uma forma bastante refinada é conseguir incluir a falta de escolha como uma escolha. 
Quantas e quantas vezes ficamos brigando conosco mesmos não querendo fazer algo que temos que fazer. 
Tentamos encontrar as mais diferentes saídas para não ter que fazer o que é necessário. 
Nestas situações acabamos não compreendendo que, mesmo contra nossa vontade, fazer algo que temos que fazer ainda é nossa maior vontade. 
Saber transformar uma não escolha numa decisão nossa, numa escolha, é prova de maturidade. 
Vive melhor quem escolhe as suas não escolhas do que aquele que é obrigado, esperneando, a aceitá-las. 
Por: Nilton Bonder


(50) Esperança pode dar força a um indivíduo, mas não bom-senso. 
As pessoas parecem misturar com grande facilidade dois importantes instrumentos para resolver seus problemas: esperança e bom-senso. 
Apenas com um deles é muito difícil construir qualquer coisa. 
E infelizmente a esperança é muitas vezes entendida como um substituto do bom-senso.
Apesar de ser ela "a última que morre", com bom-senso ela não precisa morrer tão frequentemente.
Uma importante forma de equilíbrio é não permitir que a esperança nos cegue ou nos paralise.
Neste sentido, a esperança pode ser tão perigosa como uma atitude do tipo "ó vida.., ó azar".
Quem espera, deve fazê-lo ativamente, com iniciativa e bom-senso.
Por: Nilton Bonder


(51) Quando conhecemos algumas faltas em alguém, dizemos: Conheço bem o fulano! Quando conhecemos muitas virtudes dizemos: Eu mal o conheço. 
O mal e o erro nos parecem muito mais definitivos e definidores do que o bem e o acerto. 
Se alguém nos faz algo de mal ou nos trai a confiança: "esse sujeito acabou para mim". 
Não há nada de bom que ele possa fazer que restitua a confiança nele. 
Pode ser uma opção agir de forma tão exigente, mas não deveríamos ter a mesma atitude para com as coisas boas?
Alguém que nos faça algo muito positivo não deveria ser elevado à categoria de: "esse sujeito ganhou meu coração"?
Quando alguém tiver sido singularmente legal com você, diga em voz alta: este sujeito eu conheço!
Por: Nilton Bonder




(52)

A espiritualidade sempre foi uma produção da inquietação humana e de suas dúvidas. Três são as perguntas principais da espiritualidade que as outras formas de inteligência evitam ou tratam de forma superficial ou pragmática: “de onde viemos?”, “qual é a nossa função?”, e “para onde vamos?”. 
Tais perguntas podem parecer irrelevantes, se consideramos a busca por eficiência que se faz por meio do conhecimento, da compreensão e da intuição. 
Essas perguntas não são importantes para se acertar nada, para resolver nada ou para ter sucesso em nada. 
No entanto, são fundamentais para se obter paz e alegria.
A paz e a alegria são os sentimentos que se produzem quando estamos em dia com nossas obrigações e direitos.
Quem não doa de si de forma apropriada ou não recebe dos outros na medida apropriada não encontra paz ou alegria.
Reverenciar é conhecer certos princípios da vida, sabendo valorizá-los e priorizá-los. Esses princípios essenciais compõem a preocupação da espiritualidade.
Quais seriam esses princípios?
Os místicos classificam as principais afirmações da espiritualidade em seis reverências essenciais:

1. A realidade é feita de várias camadas.
2. O mundo é uma passagem.
3. Tudo está interconectado.
4. Você está em todo o Universo e todo o Universo está em você.
5. Tudo é Nada.
6. Todos nós fazemos parte do processo de transformação do Universo.

A espiritualidade é a inteligência baseada na incerteza, que produz as seis afirmações acima.
Repare que provavelmente elas fazem sentido sem que possamos comprovar qualquer uma delas.
A tarefa de quem “reverencia” é a de constituir políticas e planos de ação individuais e coletivos que tenham como referência essas seis afirmações.

Por: Nilton Bonder





(53)

Metade de uma verdade é uma mentira inteira. (Provérbio judaico)
Uma das formas mais comuns de nos enganarmos é através das meias verdades. Somos, na maioria da vezes, bastante sofisticados para cairmos em armadilhas óbvias.
Afinal, todos nós queremos amar e não odiar, aproveitar e não desperdiçar, construir e não destruir, vencer e não fracassar.
O que nos leva então a odiar tanto, desperdiçar tanto, destruir tanto e fracassar tanto? 
São nossas meias verdades.
Elas nos conduzem a mentiras inteiras e através delas podemos viver vidas de grande falsidade.
Da próxima vez que você se fizer uma pergunta ou proposta, não fique tão fascinado pela metade verdade.
Fixe-se na metade mentira.
Criar intolerância à mentira, por menor que seja a sua percentagem, é a melhor maneira de se educar para uma vida sincera e menos dissimulada.
Por: Nilton Bonder